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faixa Deus é amor

É chegada a hora de se encerrar a crueldade na Terra, tempo de todos os filhos de Deus unirem-se
num mesmo afeto,
num mesmo caminho e de mãos maiores auxiliarem pequenas mãos, pequenas patas, pequenos pés.

São tempos de esquecermos o corpo e vermos o espírito, esquecermos as diferenças evolutivas e vivenciarmos o amor, pois é esta a vontade de Deus, uma vez que Deus é o amor puro,
em todas as suas formas ♥

 


Diálogo entre Exu e Oxalá

Por Doublas Fersan


O céu e a terra fundiam-se no horizonte distante parecendo uma coisa só, como se não houvesse separação entre o mundo espiritual e o material, a consciência individual e a cósmica. 

Sentado sobre uma pedra em uma enorme montanha, de cabeça baixa e olhos apenas entreabertos, Exu observava o fenômeno da natureza e refletia sobre o seu interminável trabalho. 

- “Como é difícil a humanidade” - pensou em certo momento – “parece nunca estar satisfeita, está sempre querendo mais e, em sua essência egoísta, desarmoniza tudo, tudo... Tudo que era para ser tão simples, acaba tão complicado.”

Com os olhos habituados a enxergar na escuridão e na distância, Exu observou cada canto daqueles arredores. Viu pessoas destruindo a si mesmas através de vícios variados, viu maldades premeditadas e outras praticadas como se fossem atos da mais perfeita normalidade. Viu injustiças, principalmente contra os mais fracos e indefesos. Com seus ouvidos, também atentos a tudo, ouviu mentiras, palavras de maledicência, gritos de ódio e sussurros de traição.

Exu suspirou: - “Serei eu o diabo da humanidade?” – pensou, ironicamente, ao lembrar o quanto era associado à figura do demônio. Passou horas observando coisas que estava habituado a ver todos os dias: mentiras, fraudes, corrupção, traições, inveja, e uma gama enorme de sentimentos negativos.

Foi quando estava imerso nesses pensamentos que Exu ouviu uma voz ao seu lado, dizendo naquele tom austero, porém complacente:

- “Laroyê, Senhor Falante.”

Exu ergueu os olhos e vislumbrou a figura altiva de Oxalá.

- “Èpa Bàbá” - respondeu Exu, fazendo um pequeno movimento com a cabeça, em sinal de respeito.

- “Noto que está pensativo, amigo Exu” - falou Oxalá. 

Exu respirou fundo, contemplou novamente o horizonte e respondeu:

- “Trabalhamos tanto... e incansavelmente, mas os homens parecem não valorizar o  nosso esforço.”

Oxalá moveu os lábios para dizer algo, mas antes que isso acontecesse, Exu, como que prevendo o que seria dito, continuou:

- “Não falo em tom de reclamação, sou um trabalhador incansável e o amigo sabe disso. É com prazer que levo o que tem ser levado e retiro o que deve ser retirado. É com satisfação que abro ou fecho os caminhos, de acordo com a necessidade de cada um. É com resignação que acolho, sobre minhas costas largas, a culpa do mal que muitos espíritos encarnados e desencarnados fazem, não reclamo do meu trabalho. Sou Exu, para mim não existe frio ou calor, cansaço ou preguiça, existe apenas a necessidade de cumprir a tarefa para qual fui designado.”

- “Se mostra tão resignado e, no entanto, parece que deixa-se abater pelo desânimo” - comentou Oxalá, apoiando-se em seu opaxorô.

Exu soltou uma gargalhada, ao que Oxalá deu um leve sorriso, com um movimento quase imperceptível no canto direito dos lábios.

 - “Não sou resignado, nem tampouco estou desanimado” - falou Exu - “estou pensativo sobre a pouca inteligência dos homens. Veja só: como responsável pela aplicação da Lei Cármica, observo muita coisa. Observo não apenas o sofrimento que alguns homens impõem a si mesmos, mas vejo também as incessantes oportunidades que o Universo dá a cada um dos seres que habitam a Terra. O aprendizado que tanto precisam lhes é dado por bem, mas quase nunca enxergam pelo amor, então, lhes é dada a oportunidade de aprender pela dor, mas geralmente só lembram a lição enquanto a dor está a alfinetar sua carne. Com o alívio, vem o esquecimento e todos os erros e vícios voltam a aflorar.”

Oxalá fez menção de dizer algo, mas com o dedo em riste entre os lábios, novamente Exu o impediu de falar.

- “Ouça” - disse Exu, colocando a mão em concha na orelha, como se ele e Oxalá precisassem disso para ouvir melhor. E ambos ouviram o som que vinha da Terra: o som da inveja, dos maus sentimentos, da maledicência, da promiscuidade, da ganância. Exu deu outra gargalhada e disse:

- “Percebe? Temos trabalho por muitos séculos ainda.”

- “E isso não é bom?” - perguntou Oxalá, que dessa vez não deixou Exu responder e continuou:

- “Pobres homens, ignorantes da própria grandeza espiritual e da simplicidade do Universo. Se não desconhecessem tanto o funcionamento das coisas, seriam mais felizes.”

- “Não estão preocupados em discernir o bem do mal”- resmungou Exu.

- “E você está, Senhor Falante?” - tornou Oxalá.

Mais uma vez Exu gargalhou.

- “Para mim não existe o bem ou o mal. Existe o justo, bem sabe disso.”

- “Então por que tenta exigir esse discernimento dos pobres homens?”

- “Eu conheço os caminhos” - respondeu Exu, um tanto irritado – “para mim não existem obstáculos, todos os caminhos se abrem em encruzilhadas. Para mim, as portas nunca se fecham e as correntes nunca prendem. Conheço o sutil mistério que separa aquilo que chamam de bem, daquilo que chamam de mal. Não sou maniqueísta, não sou benevolente, pois não dou a quem não merece, mas também não sou cruel, pois sempre ajo dentro da Lei. Os homens, coitados, acreditam na visão simplista do bem e do mal, como se todo o Universo, em sua ‘complexa simplicidade’, se resumisse apenas entre o bem e o mal.”

- “Pobres homens” - repetiu Oxalá.

- “Pobres homens” - concordou Exu - “mesmo olhando o Universo de uma forma tão simplista, dividido apenas entre bem e mal, acabam sempre demonizando tudo, achando que o mal é o melhor caminho para conseguir o que desejam ou então acreditam que são eternas vítimas do mal. E o que é pior, quase sempre eu é que sou o culpado.”

- “Mas é você o responsável pelo mal?” - perguntou Oxalá, admirando o horizonte.

- “Sou justo, apenas isso” - respondeu Exu.

- “Não seria a justiça uma prerrogativa de Xangô?” – tornou, o maior dos Orixás.

Exu olhou fundo nos olhos de Oxalá e respondeu:

- “Estou a serviço do Universo, de cada uma das forças que o compõe, inclusive do Senhor da Justiça.”

- “Isso significa que trabalha em harmonia com o Universo, caro Exu?”

- “Imaginei que soubesse disso”- respondeu Exu, irônico como sempre.

- “Acho que sempre soube. Quando observo o horizonte e vejo o céu fundindo-se à Terra, percebo o quanto o material pode estar ligado ao espiritual. Mas também lembro que o sol vai raiar e acredito que apesar de todas as dificuldades que os próprios homens criam, é possível acender a chama da fé em seus corações. Percebo o quanto eles são falhos, mas percebo também o quanto são frágeis e precisam de nós” - e nesse momento pousou a mão sobre o ombro de Exu - “sejam dos que trabalham na luz ou na escuridão, pois tudo faz parte do Uno e se inter-relacionam. O mesmo homem que hoje está nas profundezas mais abissais, amanhã pode ser o mensageiro da luz.”

Exu olhou para os olhos de Oxalá, como se não estivesse concordando, mas dessa vez foi Oxalá quem não deixou que o outro falasse, prosseguindo com sua narrativa:

- “Se não fossem os valorosos Guardiões que trabalham nas regiões trevosas, dificilmente os que ali sofrem, um dia alcançariam o benefício da luz. Se houvesse apenas a luz, não haveria o aprendizado, que tem como ponto de partida o desconhecimento, as trevas. O Universo tão simples é, ao mesmo tempo, tão inteligente, que mesmo nós, que observamos os homens a uma distância grande, às vezes, nos surpreendemos com sua magnitude. Os homens são frutos que precisam amadurecer e você, amigo Exu, é a estufa que os aquece até o ponto certo da maturação e eu sou a mão que os colhe como frutos amadurecidos.”

- “Quem diria que trabalhamos em harmonia?” - disse Exu, em meio a um sorriso - “acreditam que vivemos a digladiar quando, na verdade, trabalhamos em busca de um mesmo objetivo: o aprimoramento da raça humana.”

Oxalá só não soltou uma gargalhada porque não era esse seu hábito (e, sim, o de Exu), mas disse, sem conseguir esconder o contentamento:

- “Então, companheiro Exu, não temos porquê lamentar. A ignorância em que vivem os homens é sinal de que ainda temos trabalho a realizar. A pouca sabedoria que possuem significa que ainda estão muito próximos ao ponto de partida e cabe a nós, não importa se chamados de “direita” ou “esquerda”, auxiliá-los em sua caminhada, que é muito longa ainda. Apenas contemplar as mazelas dos corações humanos não irá auxiliá-los em nada. Sou a luz que guia os olhos da humanidade e você é o movimento que não a deixa estática. Se pararmos por um segundo sequer, atrasaremos em séculos e séculos o progresso da raça humana, que tanto depende de nós.”

Nesse momento, o sol começou a raiar timidamente no horizonte, separando o céu e a Terra. Exu levantou-se da sua pedra e se pôs a caminhar montanha abaixo.

- “Aonde vai, Senhor Falante?” - perguntou Oxalá, como se não soubesse.

- “Vou trabalhar, Senhor dos Orixás” - respondeu Exu, gargalhando novamente - “Esqueceu que sou um trabalhador incansável e que trabalho em harmonia com o Universo, mesmo que ele me imponha a luz do sol?”

Oxalá não respondeu, mas esboçou um sorriso tímido. Assim trabalhava o Universo: sempre em harmonia. Os homens, mesmo ainda presos a tantos conceitos primários, trilhavam os primeiros passos em direção ao progresso, pois não estavam órfãos de seus Orixás e protetores.

 

 

Oxalá e Jesus